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Borges Dans le Noir ou Comendo no Escuro

Desde que abriu suas portas em Paris no ano de 2004 o Restaurante (bar e lounge) Dans le Noir tem proporcioando aos seus clientes a ímpar experiência de comer, beber e conversar em um ambiente totalmente escuro.

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A idéia desenvolvida por Edouard de Broglie sócio de um fundo de investimentos chamado Ethik Management, associa o apelo de marketing provocado pela idéia inusitada, à possibilidade de inclusão de pessoas cegas ou com baixa visão – os atendentes e boa parte da equipe são assim.

Não é mais novidade mas é bem legal. O Los Angeles Times publicou uma lista de locais semelhantes em 3 continentes.

A experiência deve ser muito interessante. De acordo com o mesmo Jornal, celulares são confiscados na entrada, assim como isqueiros ou quaisquer artefatos capazes de produzir luz. A proposta é aguçar outros sentidos com a falta da visão. As pessoas podem escolher o que querem comer – a escolha é feita em um local iluminado – mas, em geral, escolhem o Menu Confiança. Sem saber o que estão comendo, os comensais podem tentar adivinhar a natureza e a preparação do prato. Copos inquebráveis sobre as mesas são fundamentais para evitar acidentes indesejáveis.

Várias outras atividades e eventos são realizados no local totalmente totalmente privado de luz. Leitura em voz alta de livros publicados em Braile, encontros às cegas (literalmente blind dates), degustação de vinhos e, até mesmo, experiências sensoriais feitas por escolas que querem educar seus alunos para a inclusão e melhor aceitação das diferenças físicas.

A iniciativa recebe críticas e elogios. Alguns críticos gastronômicos acham absurda a idéia de não se ver o prato antes de sua degustação. Os mais puristas – aqueles que brindam para fazer valer todos os sentidos na refeição, incluindo a audição – abominam a idéia por julgarem impensável não ver a textura, as cores e a montagem dos pratos antes e durante o ato de comer. Com certeza são puristas não cegos…

Jorge Luís Borges. Foto: GRAZIA NERI/LEHTIKUVA Marcello Mencarini

Jorge Luís Borges. Foto: GRAZIA NERI/LEHTIKUVA Marcello Mencarini

Pessoalmente acho que adoraria estar dentro de uma experiência como essa. Penso que faria muitas elaborações durante e depois do acontecimento. Como diria Jorge Luís Borges: “devo certas dádivas às sombras”. Neste trecho, retirado do ensaio de Miriam Freitas, o grande escritor argentino, que ficou cego aos 66 anos, dá crédito às várias possibilidades ofertadas pela cegueira, em sua tentativa de atravessar e entender a escuridão do ser humano.

Ginástica Inclusiva

Fitness

Achei muito bacana conhecer a “Inclusive Fitness Initiative”. É uma organização que cria equipamentos e ambientes inclusivos para que pessoas com necessidades especiais possam se exercitar e cuidar do corpo e da mente. Além de produzir os equipamentos, a organização treina equipes e profissionais para o trabalho de inclusão.

Vale a pena visitar: www.inclusivefitness.org

Ler, Lavar os Cabelos e Atravessar Paredes

Ontem almocei com uma amiga de São Paulo, que visitava Belo Horizonte a trabalho, e que estava super triste porque não podia lavar os cabelos sozinha. Passou por uma cirurgia e temporariamente está com os movimentos dos braços limitados! Depois de ajudá-la a encontrar um salão que pudesse resolver o problema, refleti bastante sobre nossa visão a respeito das limitações físicas.

Mesmo para pessoas bastante cultas e informadas ainda é comum confundir ou mesmo desconhecer os princípios do Design Universal e os conceitos de acessibilidade, deficiência e limitação física.

Para a maior parte das pessoas, quando se fala em acessibilidade em arquitetura, a primeira imagem que se tem é de um cadeirante ou de um cego. Boa parte da humanidade se esquece que em algum momento da vida, com probabilidade quase absoluta, todos nós passaremos por algum tipo de limitação física. Podemos ter uma simples conjuntivite, podemos engordar, as mulheres podem ficar grávidas, e logo depois ter que ir a algum lugar carregando seu bebê ao colo, o bebê pode ter síndrome de Down, podemos sofrer uma cirurgia, ter um membro quebrado mas, principalmente, quase todos nós vamos envelhecer. E com o envelhecimento nossas habilidades físicas e cognitivas fatalmente ficarão reduzidas.

Cachorro lendo

Depois dos 40 anos, tive que começar a usar óculos para leitura. Isso me marcou muito e, na verdade, creio que foi um dos principais motivos para que eu começasse a me interessassar por design inclusivo e acessibilidade. Passei a perceber melhor quão efêmera é sensação de ser fisicamente “normal”. Não me senti normal nos primeiros dias de adaptação aos óculos, principalmente quando “tentei” atravessar uma parede de vidro em uma Galeria. Com um tremendo galo na testa, passei pelo constrangimento de ter que encarar o público que se criou à minha volta, estatelado no chão e atordoado. Como não sou Renato Aragão que bateu contra a parede de vidro do Estúdio de Ana Maria Braga (veja o vídeo Renato bate no vidro) e manteve a pose caricata, eu só consegui rir de mim mesmo alguns minutos depois.

Outro dia me surpreendi com o discurso de um arquiteto, que organizava uma mostra de arquitetura de interiores, que me dizia que nesse tipo de evento não se espera um cego, desta forma não tínhamos muito a fazer sobre sinalização tátil. O pensamento tem até alguma lógica. Talvez nenhum cego queira realmente ir a uma mostra de arquitetura. Mas o que dizer sobre os nossos velhos, as pessoas que tem baixa visão ou alguma dificuldade de locomoção?

Me identifico muito hoje com a missão de informar e sensibilizar as pessoas a respeito dessas sutilezas. Sinalizar os vidros, o chão, alargar os corredores, construir rampas enfim, simplesmete pensar no design para todos e não somente para o homem-padrão, “inventado” no início do século passado e apropriado pelos ideais de eugenia da Alemanha Nazista.