Ontem almocei com uma amiga de São Paulo, que visitava Belo Horizonte a trabalho, e que estava super triste porque não podia lavar os cabelos sozinha. Passou por uma cirurgia e temporariamente está com os movimentos dos braços limitados! Depois de ajudá-la a encontrar um salão que pudesse resolver o problema, refleti bastante sobre nossa visão a respeito das limitações físicas.
Mesmo para pessoas bastante cultas e informadas ainda é comum confundir ou mesmo desconhecer os princípios do Design Universal e os conceitos de acessibilidade, deficiência e limitação física.
Para a maior parte das pessoas, quando se fala em acessibilidade em arquitetura, a primeira imagem que se tem é de um cadeirante ou de um cego. Boa parte da humanidade se esquece que em algum momento da vida, com probabilidade quase absoluta, todos nós passaremos por algum tipo de limitação física. Podemos ter uma simples conjuntivite, podemos engordar, as mulheres podem ficar grávidas, e logo depois ter que ir a algum lugar carregando seu bebê ao colo, o bebê pode ter síndrome de Down, podemos sofrer uma cirurgia, ter um membro quebrado mas, principalmente, quase todos nós vamos envelhecer. E com o envelhecimento nossas habilidades físicas e cognitivas fatalmente ficarão reduzidas.

Depois dos 40 anos, tive que começar a usar óculos para leitura. Isso me marcou muito e, na verdade, creio que foi um dos principais motivos para que eu começasse a me interessassar por design inclusivo e acessibilidade. Passei a perceber melhor quão efêmera é sensação de ser fisicamente “normal”. Não me senti normal nos primeiros dias de adaptação aos óculos, principalmente quando “tentei” atravessar uma parede de vidro em uma Galeria. Com um tremendo galo na testa, passei pelo constrangimento de ter que encarar o público que se criou à minha volta, estatelado no chão e atordoado. Como não sou Renato Aragão que bateu contra a parede de vidro do Estúdio de Ana Maria Braga (veja o vídeo Renato bate no vidro) e manteve a pose caricata, eu só consegui rir de mim mesmo alguns minutos depois.
Outro dia me surpreendi com o discurso de um arquiteto, que organizava uma mostra de arquitetura de interiores, que me dizia que nesse tipo de evento não se espera um cego, desta forma não tínhamos muito a fazer sobre sinalização tátil. O pensamento tem até alguma lógica. Talvez nenhum cego queira realmente ir a uma mostra de arquitetura. Mas o que dizer sobre os nossos velhos, as pessoas que tem baixa visão ou alguma dificuldade de locomoção?
Me identifico muito hoje com a missão de informar e sensibilizar as pessoas a respeito dessas sutilezas. Sinalizar os vidros, o chão, alargar os corredores, construir rampas enfim, simplesmete pensar no design para todos e não somente para o homem-padrão, “inventado” no início do século passado e apropriado pelos ideais de eugenia da Alemanha Nazista.
Além de concebido para levar um cadeirante para o trabalho, é elétrico!

